Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Ouriços


"Chove, pareceu-me um dia óptimo para escrever. Chove, chove como no dia que nos resguardamos naquele portal da tua vila, quando éramos, ainda, dous perfeitos desconhecidos. Nada mudou desde a última vez, simplesmente gosto de escrever estas cartas sem resposta tanto como gosto de falar contigo. É raro, sempre detestei falar com mulheres. Tu falas sem falar, falas sem dizer nada. Tu falas em silêncio. Tu és diferente. A nossa história é a do conto dos ouriços de mar: temos frio e precisamos calor, mas achegamo-nos e só somos capazes de ferir-nos com as nossas puas. Tentamo-lo dia após dia, morreremos de frio. Morreremos sós se nom cortamos as nossas puas, essas que nos impedem amar-nos, essas que me impedem dizer o que sinto por ti. Segue chovendo."

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Medo!

Onde estão os aforismos sobre a (in)felicidade? Onde estão os provérbios chineses, onde procuro os adágios de Erasmo aplicados às nossas vidas?

Será que nom somos conscientes da nossa própria (in)felicidade? Enfermidade demasiado grave.

Nom gosto da filosofia da desesperança e o resto dos filósofos olvidarom-se de nós.

No espelho aparece Murphy para recordar-me, dia após dia, que ainda existe a Lei de Clark...

E nós, olhando-nos, de maõs dadas, nom nos atrevemos a desenvolver o grande Regalo!

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

De princesas e de sapos

Nesse afám por satisfazer a sua curiosidade e conformar o seu próprio Universo, @s nen@s reclamam respostas a perguntas simples mas, às vezes, surpreedentes.

Umha tarde, minha irmã, interrogou-me acerca da existência das princesas. Marchou decepcionada ao assegurar-lhe que as princesas só existiam nos contos de fadas. Enganei-me: e logo, nom houve e há princesas "reais"? Recordo aquela que casou com um feio príncipe que resultou nom ser azul, a mesma que morreu num acidente de circulaçom no carro do seu amante...

Pola noite lim-lhe um conto de verdade, com princesas autênticas. Princesas que rompem com o seu príncipe azul, princesas que estám fartas de levar sapatos de cristal, princesas que lhes pedem asas às suas fadas, asas para poder voar e fugir da torre na que que se encontram presas... Som essas as autênticas princesas, as que existem fora dos contos de fadas.

Eu, prefiro continuar a ser simples sapo...

Terça-feira, 7 de Abril de 2009

Lx


À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que uma criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro, os carros eléctricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro alto. À roda da estátua central as pombas são migalhas pretas que se mexem, como se lhes desse um vento espalhador. Dão passinhos, gordas sobre pés pequenos. E são sombras, sombras…
Vista de perto; toda a gente é monotonamente diversa. Dizia Vieira que Frei Luís de Sousa escrevia “o comum com singularidade”. Esta gente é singular com comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo isto me faz pena, sendo-me todavia indiferente. Vim parar aqui sem razão, como tudo na vida.

Do lado do oriente, entrevista, a cidade ergue-se quase a prumo falso, assalta estaticamente o Castelo. O sol pálido molha de um aureolar vago essa mole súbita de casas que para aqui o oculta. O céu é de um azul humidamente esbranquiçado. A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais branda. O vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente, cheira vagamente ao maduro e verde do mercado próximo. Do lado oriental da Praça há mais forasteiros que do outro. Como descargas alcatifadas, as portas onduladas descem para cima; não sei porquê, é assim a frase que me transmite aquele som.

É talvez porque fazem mais esse som ao descer, porém agora sobem. Tudo se explica.

De repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam - só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente.

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

Sábado, 28 de Março de 2009

Masculinidade e Amor

Nom quero actuar de forma temerária; nom quero estar condenado a ser valente em todas as situaçons; nom gosto de ser irado, assanhado ou impetuoso; nom gosto, em definitiva, de satisfazer os típicos tópicos da masculinidade.

Tenho que disfarçar as minhas emoçons? Tenho que ocultar os meus medos e as minhas penas para nom mostrar essa debilidade que num "macho" nom se pode consentir? Estám condicionados os meus sentimentos?

Que faço eu se necessito chorar? E quando queira confessar o que sinto por ti? E se te quero abraçar? Que farei eu se só quero beijar os teu lábios?

Temos que livrar-nos desse pouso da cultura tradicional de género e rachar com os prejuízos recebidos através da aprendizagem familiar e social, ou o que é o mesmo, acabar com esse constructo patriarco-burguês.

Nom será que o patriarcado também é mau para nós?